Quarta-feira, 28 de Setembro de 2016

TELEGRAFO ELÉCTRICO CHEGAVA A "CINTRA" 1855

A implantação da monarquia constitucional, contribuiu para que o estatuto da vila de Sintra como estância de veraneio da realeza, ganhasse ainda maior visibilidade.

D. Fernando rei consorte, segundo marido da Rainha Dona Maria II, dedicava a Sintra especial carinho, adorava permanecer na Vila, e preocupava-se com o progresso do burgo, não descurando nenhuma ocasião de dotar a povoação das infra-estruturas mais modernas.

Quando regente do reino após falecimento da esposa e menoridade do filho príncipe Dom Pedro, futuro rei Pedro V, conseguiu que  governo presidido por António Fontes Pereira de Melo, adjudicasse em Agosto de 1855 a EMPRESA DOS TELÉGRAFOS ELÉCTRICOS DE PORTUGAL, linha de telégrafo eléctrico, entre Lisboa e Sintra. O traçado partia do edifício do Ministério das Obras Públicas, no Terreiro do Paço em Lisboa, seguindo pelos Palácios de São Bento, Necessidades, Ajuda, Caselas Queluz e até Sintra e Palácio Real (Palácio da Vila).

Importante beneficio para Sintra, uma das primeiras terras do reino a dispor desta tecnologia de comunicação moderna para a época.

Talvez, D. Fernando II estivesse a pensar no Palácio da Pena que iria mandar construir por sua conta. Quem sabe? Sem dúvida Sintra deve estar grata a quem a admirava, e muito fez dotá-la das comodidades da civilização.

P4183128.JPG

 

Publicado por Júlio Cortez Fernandes às 16:59
Link do post | Comentar
Quinta-feira, 8 de Setembro de 2016

"ANTIGAMENTE HAVIA MAIS RESPEITO PELAS COISAS E PESSOAS"

O titulo é idêntico a frase que inúmeras ocasiões ouvimos, quando alguém se refere a algo que causa estranheza e repulsa. Pretende-se afirmar os tempos hoje são menos propícios ao cumprimento da lei, regras da civilidade e convivência, há menos respeito pela propriedade etc.

Antigamente é que era bom.

São afirmações empíricas, não "resistem" a estudo ainda que pouco aprofundado da história. Quem investiga e segue metodologia adequada, deve fugir das "evidências", são sempre enganadoras.

Na segunda década do século XX, Mário Azevedo Gomes, insigne democrata republicano, professor catedrático no Instituto Superior de Agronomia,situado na tapada da Ajuda em Lisboa, grande estudioso da arboricultura horticula e silvicula, admirador de Sintra, nomeadamente do Parque da Pena, acerca do qual deu estampa monografia relevante, igualmente publicou em 1916 pequeno livro, incluído na colecção "os livros do povo" destinado a difundir conhecimentos úteis sobre várias temáticas no seio das classes populares.

Esse livrinho, intitulado "A UTILIDADE DAS ÁRVORES", contem na introdução relato de um episódio que o Professor Azevedo Gomes, presenciou na Freguesia de Colares, Concelho de Sintra, escreveu o "mestre": "Eu estava aqui há uns anos, no verão, em Colares-que é uma pequena povoação perto de Lisboa afamada pelo vinho e pela boa fruta, especialmente pecegos, que a região produz-quando ali foram um dia muitos indivíduos da capital, empregados do comércio creio eu, e talvez operários, para se divertirem; pois essa gente que por viver em Lisboa devia ser mais educada e respeitadora, não teve dúvida em andar lá por aqueles pomares, que quase não tem defesa, apanhando fruta aqui e além, como se ela lhe pertencesse; e, se já isto é um mal que todos percebem, ainda se fez pior: que foi, com a pressa de colher os frutos, partir ramos inteiros e esgarrar árvores novas, e portanto fracas, em termos de se estragar fruta naquele ano e de se colher menos, também, no futuro."

Elucidativo texto não necessita comentários. A nós quase todos os anos "apanham " cerejas produzidas por árvores que plantei na minha terra natal. Quem procede assim não são pessoas, é gente, a populaça só acata algo quando sente repressão. Ouvimos "eu tenho os meus direitos",é verdade e deveres ?  Essa gente danifica  jardins públicos, parques infantis, deixam os dejectos do cão no passeio e relvados, não colocam os sacos do lixos nos contentores, grafitam paredes de prédios acabados de pintar , sabe Deus com que sacrificio dos proprietários. etc... 

Afinal sempre foi apanágio  da gentalha, não respeitar nada e ninguém, só existe um caminho vigiar punir e educar.Não se diga no meu tempo era melhor ,porque... era mesma coisa, ou pior que actualmente, a natureza humana sem o afago da civilização é rude tosca propensa á rapina...

P8244634.JPG

 

Publicado por Júlio Cortez Fernandes às 18:31
Link do post | Comentar
Segunda-feira, 5 de Setembro de 2016

UMA CORRIDA NA PRAÇA DE TOUROS DE "CINTRA"

A antiga praça de touros de Sintra, segundo o ilustre Historiador Sintrense e querido amigo José Alfredo da Costa Azevedo, estava edificada onde existe o mercado municipal no bairro da Estefânia, vila sede do Município. Seria demolida depois de implantado Regime Republicano em 1910.

A Praça de touros de Sintra durante o período de veraneio na Vila da gente grada de Lisboa, era palco de corridas de touros. Em 1906, dia 16 de Agosto quarta-feira, teve lugar uma tourada na qual foram lidadas dez vacas da ganadaria do Marquês de Castelo Melhor, D. João da Silveira Pinto da Fonseca Correia de Lacerda de Eça e Altro Figueiredo Sousa e Alvim, proprietário de extensas e ricas propriedades no Ribatejo. A sua ganadaria considerada uma das melhores do Reino, esteve representada na inauguração em 1901, da Praça de Touros Palha Blanco edificada em Vila Franca de Xira.

Na corrida de Sintra as honras da tarde foram para o cavaleiro D. Ruy Zarco da Câmara filho do conde da Ribeira Grande e bandarilheiro Eduardo Perestrelo. Os moços de forcados não compareceram, devido á falta de vestuário apropriado. As pegas  seriam executadas por espontâneos, presentes nas bancadas. O gado saiu bravo e proporcionou lides brilhantes. 

Todos os intervenientes eram "filhos de famílias da nossa primeira sociedade", conforme relatava a imprensa da época. Praça quase cheia com assistência  distinta e entusiasta. Dirigiu a corrida D. Vicente de Paula Gonçalves Zarco da Câmara conde da Ribeira Grande,progenitor do cavaleiro D. Ruy.

O evento tauromáquico realizou-se no ano de 1906. O Regicídio ocorreu dois anos depois, posteriormente ao trágico acontecimento não houve mais touradas em Sintra. Assim deve ter sido uma das derradeiras corridas realizadas na praça de toiros Sintrense.

Publicado por Júlio Cortez Fernandes às 09:28
Link do post | Comentar
Domingo, 28 de Agosto de 2016

O BAIRRO DOS AVIADORES

No concelho de Sintra freguesia de Rio de Mouro, junto à estação ferroviária,no antigo sitio do carrascal, foi construido na década de 60 do século XX, aglomerado urbano, cujas artérias foram atribuídos nomes de aviadores e personalidades ligadas ao desenvolvimento da aviação.

Uma das vias mais movimentadas da zona ostenta um nome sem qualquer referencia a profissão ou cargo que justifiquem atribuição da homenagem .

Quantas pessoas circulando naquela rua conhecem a razão porque se denomina MÁRIO GRAÇA.?

A história vale a pena ser contada.

Mário Graça jornalista do extinto jornal o "Século", faleceu em consequência de desastre aéreo ocorrido em 27 de Março de 1925. No desempenho da actividade profissional, fora incumbido de realizar a reportagem no campo da aviação da Amadora da partida do avião que faria a primeira ligação Portugal - Guiné.

Mário Graça de 23 anos de idade, ambicionava carreira jornalística de sucesso, considerava a oportunidade decisiva para isso dado a popularidade dos assuntos ligados a aviação, muito por causa da viagem aérea Lisboa-Rio de Janeiro realizada por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, três anos antes. As seis horas e quarenta e cinco minutos daquela manhã M.Graça estava já na Amadora para não perder nenhum pormenor do evento.

Surge então ideia de no percurso inicial o avião que pretendia alcançar Bolama, na Guiné então portuguesa, ser acompanhado por outras aeronaves. Os lugares foram distribuidos, numa delas alguns dos convidados recusaram por diversos motivos voar. Mário Graça que nunca fizera qualquer voo, ficou entusiasmado com a possibilidade do baptismo de voo e aceitou lugar numa das aeronaves.

Tudo correu como previsto,a formação de aeronaves acompanhou o avião até a região de Setúbal e depois voltaram para a Reboleira na Amadora. O avião onde viajava Mário Graça, quando fazia aproximação a pista por altura de Barcarena sofreu um golpe de vento que inclinou o aparelho provocando perda de velocidade e consequente queda num terreno agrícola junto ao cemitério de Barcarena, onde hoje esta implantada a CREL (circular rodoviária exterior de Lisboa ).

Faleceu no local o piloto do avião tenente aviador José Carlos Pissarra, os outros ocupantes tenente Luís Caldas e Mário Graça, ficaram gravemente feridos. Mário Graça viria a falecer a 1 de Abril, no hospital de São José em Lisboa. O funeral realizou-se a 3, tendo o cortejo saido da sede do Sindicato dos Profissionais da Imprensa na Rua das Gáveas ao Bairro Alto. Segundo a imprensa da época um "funeral imponentissimo", o caixão foi levado ao Cemitério num carro dos Bombeiros Municipais puxado a duas parelhas. 

A morte do jovem jornalista emocionou o País dado o carácter trágico do acontecimento, transformou-se com o decurso do tempo numa "lenda", não admira, passados 35 anos quando se pensou atribuir nomes as ruas da urbanização do carrascal, o nome fosse lembrado não como aviador mas alguém ligado a história trágica da aviação portuguesa. A rua Mário Graça continua a ser calcorreada diariamente por centenas de pessoas, talvez a partir de agora, fiquem a conhecer razão da sua denominação. Quem sabe?...

P8134527.JPG

P8134528.JPG

 

Publicado por Júlio Cortez Fernandes às 12:49
Link do post | Comentar | Ver comentários (1)
Domingo, 14 de Agosto de 2016

EFEMÉRIDE IMPORTANTE- ( 1996 - 2016)

Cumpre-se este ano, vigésimo aniversário da declaração de interesse concelhio, atribuído à igreja paroquial de Rio de Mouro concelho de Sintra, Área Metropolitana de Lisboa. O templo edificado na povoação durante séculos sede da freguesia, actualmente denominada "Rio de Mouro Velho", é exemplo interessante de arquitectura religiosa de cariz rústico.

A Nossa Senhora de Belém, escolhida como padroeira, pelos frades da ordem de São Jerónimo, porque dedicavam à Virgem, grande devoção. Os monges Jerónimos, proprietários das terras das redondezas, cujos cultivadores eram foreiros do Mosteiro da Penha Longa , onde os frades, possuíam convento.Aqueles monges se ficou devendo a construção, no século XVI. época que governava  Reino de Portugal o cardeal Dom Henrique.

A igreja e fábrica de estamparia de lenços e chitas que laborou durante cento ciquenta anos, dinamizaram o desenvolvimento económico e social do burgo. Dista escassos vinte quilómetros do centro de Lisboa, no entanto a sua observação remete-nos  para lugar longínquo.

A foto inédita, obtida a partir do caminho que habitantes de localidades circundantes, designadamente,Covas,e Serradas seguiam nas deslocações a igreja Matriz, para assistirem á missa de Domingo, ilustra a ruralidade do edifício.

A declaração de interesse concelhio, publicada no Diário da República de 6 de Março de 1996,  tem o teor seguinte: 

"Classifica-se como valor concelhio , a igreja de Nossa Senhora de Belém , matriz de Rio de Mouro,no Largo do 1º de Dezembro, e Rua de Joaquim Correia de Freitas, Freguesia de Rio de Mouro.

P7304451.JPG

Imagem de Nossa Senhora de Belém,existente na Igreja de Rio de Mouro, levada solemente no seu andor durante  procissão que anualmente se realiza em  Julho , e percorre as ruas de Rio de Mouro Velho e Paiões.

P7232314.JPG

 

 

 

Publicado por Júlio Cortez Fernandes às 06:46
Link do post | Comentar
Segunda-feira, 8 de Agosto de 2016

ROMAGEM À CAMPA DE LEAL DA CÂMARA

No dia 21 do último mês passou mais um ano sobre o falecimento de Leal da Câmara, ocorrido em 1948. Costuma afirmar-se que alguém só morre de facto, quando está completamente esquecido. Apesar do reduzido número de pessoas ter assinalado a efeméride, "o mestre" continua na lembrança da gente do sítio onde viveu e deixou "marca": a RINCHOA no concelho de Sintra.

Leal da Câmara foi inumado no cemitério paroquial de Belas na sepultura  de sua mãe, falecida em 1930. Como preito ao ilustre finado, colocou-se sobre a pedra que cobre campa rasa, coroa de flores, em ambiente de respeitoso silêncio.

O acto contou com presença dos presidentes do agrupamento de freguesia de Queluz-Belas: Paula Alves e da freguesia de Rio de Mouro: Bruno Parreira e algumas outras pessoas entre as quais o autor desta nota. Cerimónia simples, por isso de grande significado.

Em entrevista concedida a um periódico dois anos antes da morte, LEAL, afirmava: "ainda acabo saloio". Não sabemos se terá sido assim, terminou os dias na região saloia que tanto estimava, é verdade... merece a nossa recordação e reconhecimento pelo legado.

P7084424.JPG

 

Publicado por Júlio Cortez Fernandes às 11:23
Link do post | Comentar
Terça-feira, 19 de Julho de 2016

UMA PONTE A PRECISAR DE CUIDADO E ATENÇÂO

 

No concelho de Sintra , localidade da Rinchoa, existe uma ponte sobre a linha de caminho de ferro , no ramal de Sintra. Colocada no final da Rua da Capela,  garante  acesso ao Centro de Saúde de Rio de Mouro. Por aqui passam centenas de pessoas diariamente.

Por incúria,  talvez por falta de verba, consequencia da austeridade, que gente de fora de Portugal e dentro quiseram "castigar", o povo , que diziam vivia acima das possibilidades, enquanto outros exerciam   pilhagem "legal" de milhões sem dó nem piedade.

A obra está em acentuado estado de degradação. a utilidade é inquestionável. Assim antes  ocorra qualquer acidente cuidem da ponte.Para que não digam: não sabiam fica o reparo e a imagem...

P5094206.JPG

 

P5094209.JPG

 

P5094213.JPG

 

 

Publicado por Júlio Cortez Fernandes às 00:51
Link do post | Comentar
Quarta-feira, 22 de Junho de 2016

VICISSITUDES DE UMA "ORADA": A ERMIDA DE SANTA MARTA

A ermida de Santa Marta erigida há cera de 400 anos por volta de 1600, cumpriu  função de templo durante dois séculos. Entrou depois em tempo de ruína e abandono, 1999 no mandato da Presidente Drª Edite Estrela a edilidade sintrense, deliberou recuperar a capela, nessa época quase completamente destruída. Parecia terem passado as provações.

Infelizmente, não.

A ermida de Santa Marta, fica situada em Casal de Cambra aglomerado  de génese ilegal, outrora considerado a mais extensa urbanização "clandestina" da Europa. A localidade objecto de processo de recuperação, parceria do Município com os moradores reunidos em associação, melhorou na actualidade é uma prospera freguesia do concelho de Sintra. A zona envolvente da ermida, requalificada  ganhou dignidade.

Nas imediações da capela surgiu populoso bairro destinado a alojar pessoas sem habitação condigna, no âmbito do denominado "PER" programa especial de realojamento.Chegaram muitas e variadas gentes a maioria pessoas de trabalho e ordeiras , no entanto há sempre quem cause problemas.

O edifico da ermida já serviu para "actividades" de "rapel", que motivaram intervenção policial. Resultaram partidas inúmeras telhas da cobertura. Há cerca de cinco anos o sino desapareceu do seu "poiso" campanário.

O templo continua aberto ao culto graças a zelo e carinho de congregação de freiras que habitam e trabalham no bairro para resolver graves problemas sociais que proliferam. O interior impecável convida a meditação e reza. 

Faço votos que a junta de Freguesia e Município ajudem a reparar estragos  e  evitem de novo a decadência do templo. Oxalá alguém leia este apelo; quem tiver possibilidade visite a ermida, merece ser conhecida e acarinhada. Ámen.

P5224245.JPG

 

P5224247.JPG

 

P5224249.JPG

 

P5224246.JPG

 

Publicado por Júlio Cortez Fernandes às 15:39
Link do post | Comentar
Sábado, 28 de Maio de 2016

Depois do "golpe"Regresso a Casa dos Revoltosos

A revolta militar de 28 de Maio 1926,instaurou uma ditadura, depois "transformada " com a Constituição Politica de 1933,no regime totalitário do Estado Novo, liderado por António de Oliveira Salazar, professor da Universidade de Coimbra.

 Causas da rebelião, a grave crise económica e política do regime parlamentar, e também  "ameaça" do programa de governo de Álvaro de Castro , que pretendia reduzir o efectivo do exército, com intuito de diminuir drasticamente a despesa do Estado.A medida não poderia ser aceite pelos militares, receosos de caírem no desemprego que grassava por todo o País.

Com origem na conservadora e católica cidade de Braga, "Roma portuguesa", a rebelião teve desde  inicio  apoio incondicional do clero e  hierarquia da Igreja.

Completada a tarefa de derrubar  regime democraticamente eleito, mas sem apoio firme da população que sofria grandes carências,os militares regressaram ao Minho.

A estação onde se concentrou o material e tropas , foi a do Cacém linha do Oeste, e concelho de Sintra.

Na imagem observar-se moinho de vento , que  "laborava" no alto do Cotão. Curiosamente o "chalé Palmeira" já existia, preservado no âmbito do programa "Cacém Polis", continua a emoldurar  a baixa do Cacém.

 Tropas e material de guerra, seguiram através da ferrovia até a estação da Pampilhosa, depois pelas linhas do norte e Minho, voltaram aos quartéis. 

O povo português nesta data passou a ver a democracia por um "canudo". Outros militares em 25 de Abril de 1974,restauraram o regime democrático. Diga-se em abono da verdade , a República implantada em 5 de Outubro de 1910, nunca esteve em causa. Os rebeldes do 28 Maio eram antidemocráticos, mas sem dúvida republicanos.

PT-TT-EPJS-SF-001-001-0003-0994A_derivada.jpg

 

Publicado por Júlio Cortez Fernandes às 17:48
Link do post | Comentar
Quarta-feira, 18 de Maio de 2016

QUANDO O CABO DA ROCA, ERA - ESQUINA DE LUZ - PORTA DA BARBARIE

mulheres as joias que lhes enfeitam as orelhas e o pescoço, tornam este espectaculo verdadeiramente hediondo. Chega-se a crer que estajamos a milhares de léguas de gente civilizada. Não parece  que estejamos na Europa e no séculoXIX. Não descreio dos tribunaes deste paiz, mas não descubro meio algum pelo qual possam tornar effectiva a responsabilidade de crimes similhantes. A multidão que ataca os navios é uma multidão anonyma de centenas e milhares de pessoas. Verificar a identidade dos criminosos é impossível. Faltam as testemunhas, porque as testemunhas são também actores nestas scenas tristíssimas (...). Mandar construir um pharol em Aveiro, é o unico meio que se me figura efficaz para avisar os navegantes e os acautellar do perigo que correm, aproximando-se da costa".

na barra de Aveiro. Assim o exige a sua posição, a grande extensão da sua praia, e sobretudo as condições especiaes em que esta se encontra. De feito, a praia de Aveiro tem a extensão pouco mais ou menos de 60 milhas,e é de tal modo baixa, que as primeiras elevações apenas se apresentam a 6 ou 8 leguas de distancia.

O farol do Cabo da Roca é um dos mais antigos e importantes da costa portuguesa; no século XIX, a frente marítima de Portugal a norte daquele cabo, carecia de pontos luminosos  para orientação dos navios. O problema era de tal forma grave que o Deputado Pires de Lima, na sessão da Câmara dos Deputados de 5 de Abril de 1878, produziu uma intervenção, cujo teor reproduzimos em parte, mantendo a grafia:

"Peço licença a V.xª e à câmara, para conversar placidamente com o Sr.Ministro das Obras Públicas, alguns poucos minutos sobre a necessidade de proceder á construcção de um pharol na barra de Aveiro. Não é isto negócio de campanário, mas uma questão de humanidade. Tratando-a, não tenho por fim conquistar ou alargar sympatias políticas ou eleitoraes. O meu fim é mais levantado. Não tive ainda, nem aspiro ter, a honra de ser eleito pelo círculo de Aveiro. As portas desta casa foram-mo abertas pelo círculo da Feira, e a Feira nenhum lucro immediato ou directo terá da construcção da obra de que vou falar (...).

A nossa costa marítima, desde a foz do rio Minho até à do Guadiana, é approximadamente de 400 milhas. Ora,para que esta costa maritima seja allumiada convenientemente, precisam-se pelo menos tres pharoes de 1ªordem collocados de 100 em 1oo milhas, que é a distancia media que ha na collocação dos pharoes da Hespanha, França e Inglaterra.

Na opinião dos homens competentes, estes tres pharoes deveriam ser colocados, um no cabo de S.Vicente, outro no cabo da Roca e o terceiro no cabo Mondego mas, como cabo Mondego já tem um pharol de 2ªordem, o terceiro deve ser construído

Alem disso a atmosphera do litoral está ali muitas vezes toldada pelos vapores emanados das marinhas do sal e da imensa bacia hydraulica, que tem 45 kilometros de extensão, e que se chama ria de Aveiro. De maneira que, quando sopra o vento do lado do mar no Inverno, é facilimo aos navegantes, irem se aproximando da costa e naufragarem irremissivel e desastradamente. É raro passar um anno,sem haver na praia de Aveiro pelo menos um naufragio.

Em Lisboa não se calculam as vidas roubadas à humanidade pelos naufragios e nem ainda os horrores por que passam os pobres naufragos, que logram salvar a existência. É necessario viver na localidade e presenciar esses espectaculos vergonhosissimos para o paiz e vergonhosissimos para a civilisação, para se avaliar devidamente tão grande calamidade.

Em geral os pescadores, que são uma classe imprevidente, gastam num dia aquilo que nesse mesmo dia ganham ,sem se lembrarem nunca do dia seguinte. Vem o Inverno, o mar fechado para a pesca, e os pescadores têem de lutar com a fome e com a miseria.

Nestas circunstancias, que são as condições habituaes do seu viver, quando descobrem que algum navio se approxima da praia, e desconfiam que elle pode naufragar, bem longe de se entristecerem, alegram-se. E alegram-se, porque a sua convicção é que o navio naufragado é um presente,que a Providencia lhes envia para os indemnisar da falta de pesca,presente de que eles vão apossar-se,como se fora propriedade indisputavel e legitima, com toda a tranquillidade de espirito, sem sombra  de escrupulo nem de remorso.

Os horrores que então se praticam são verdadeiramente indescriptiveis. Como preveni-los? Como evitá-los? Como castigá-los? Eu sr.presidente, não descubro, entre aquelles que o governo tem actualmente à sua disposição, nenhum meio efficaz (...). Podia-se ainda esperar alguma cousa das autoridadesl locaes, da sua força moral e do deu prestígio. Mas, doloroso é confessa-lo, muitas vezes as autoridades locaes estão conluiadas com os assaltantes dos navios, e têem quinhão nos despojos dos naufragos.Note-se que não  acuso as auctoridades actuaes só, ou as anteriores,accuso as de todos os tempos. Sei que ha execepções, mas infelizmente raras (...). Os actos de selvageria,que se praticam por occasião dos naufragios, difficilmente se descevem. A furia com que lançam os machados ao costado do navio, a soffreguidão com que roubam tudo o que elle contém, a impudencia com que despojam os pobres naufragos das suas vestes, e a violencia com que arrancam às

Como sabemos, o farol construído, na barra de Aveiro, ainda existe, é um dos mais imponentes "faros" da nossa costa, e que contribuiu para que as situações descritas pelo ilustre deputado tenham acabado. No século XIX, em pleno período democrático da Monarquia Constitucional a norte do Cabo da Roca, uma orla marítima sem sinalização,foi um verdadeiro buraco negro, onde pereceram milhares de pessoas, não só afogadas, mas também, chacinadas por hordas de salteadores. Cada um deve tirar as suas conclusões,  não há dúvida que a distância entre a civilização e a barbárie é muito curta. Neste como noutros casos, o que está na origem de todos os males é a falta de LUZ.

A foto que deixamos do padrão do Cabo da Roca, obtida sem vivalma no local, representa na solidão do momento, uma sentida homenagem a quantos ao longo dos tempos tiveram como última e luminosa referência, no mar, o clarão, do farol mais ocidental do continente Europeu. Ontem 17 de Maio de 2016, visitei o farol do cabo  da Roca,com alunos da Universidade senior de Massamá, no ambito da disciplina da História do Património Local.Lembrei este post e considero util voltar a "editar". 

sinto-me:
Publicado por Júlio Cortez Fernandes às 11:29
Link do post | Comentar

Mais sobre mim

Pesquisar neste blog

Setembro 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
29
30

Posts recentes

TELEGRAFO ELÉCTRICO CHE...

"ANTIGAMENTE HAVIA MAIS R...

UMA CORRIDA NA PRAÇA DE T...

O BAIRRO DOS AVIADORES

EFEMÉRIDE IMPORTANTE- ( ...

ROMAGEM À CAMPA DE LEAL D...

UMA PONTE A PRECISAR DE C...

VICISSITUDES DE UMA "ORAD...

Depois do "golpe"Regresso...

QUANDO O CABO DA ROCA, ER...

Arquivos

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Julho 2007

tags

todas as tags

Favoritos

BEM FADADO OU MAL FADAD...

Links sobre o autor

Fotografia do Cabo da Roca: Jason Weaver
blogs SAPO

subscrever feeds