No Outono de 1887, no lugar do Sabugo na Freguesia de S.Pedro de Almargem do Bispo, Município de Sintra decorreu um evento bélico que teve grande impacto na opinião pública da época, e porque se reveste de interesse, passamos a contar:
Para adestrar os efectivos militares, e preparar os soldados para um situação de guerra, foram realizados exercícios militares, que não decorreram da melhor forma, segundo relato da época: "O que se verificou no exercício do Sabugo, foi verdadeiramente extraordinário a começar pela maneira incompetentíssima como se manifestou a Administração Militar, que não soube cumprir os mais elementares preceitos das funções que tinha de desempenhar. E a prova disso são factos seguintes:
No Sabugo, as forças que representaram o inimigo não tiveram abastecimento de qualidade alguma durante cerca de quinze horas que ali permaneceram. Imagine-se que esta famosa Administração era encarregada de desempenhar as suas funções em tempo de guerra?!
O Sabugo foi um SEDAN (batalha onde a Prússia derrotou a França e ficou prisioneiro Napoleão III), para o exercito Português, onde só faltou e felizmente, não haver mortes a lastimar.
No Sabugo tudo aconteceu por incúria. Todos sabem que as tropas francesas sofreram revezes, entre outras coisas, por causa da sua administração militar, que forneceu BOTAS COM SOLAS DE PAPELÃO. No Sabugo o fornecedor de Infantaria 23 com quartel em Coimbra, e do qual algumas praças participaram no exercício, forneceu BOTAS COM SOLAS DE CASCAS DE ÁRVORES".
Parece que a corrupção que nos aflige já vem de longe. Para cumulo o tempo também não ajudou porque durante todo o exercício e depois dele choveu sempre. Este episódio ilustrou a falta de organização e fragilidade das forças armadas de então.
A foto é da Estação do Sabugo que, está edificada, nos terrenos onde os factos ocorreram.
Jacome Ratton foi um industrial e empresário agrícola que nasceu em França em 1736, e faleceu em 1820 ou 1821 em Lisboa. Naturalizou-se Português tendo sido um dos mais dinâmicos participantes na politica de desenvolvimento económico promovida pelo Marquês de Pombal.
Ratton teve a intenção de construir uma fabrica de chitas, que não concretizou. Nas suas "Memórias"escreveu:"Desvanecido o projecto da fábrica de chitas, lembrei-me de estabelecer uma de papel fino, parecendo-me ser igualmente proveitosa, senão de maior utilidade. Fiz para este fim um estudo particular naquela arte, (...) fui ver uma pequena fábrica de papel inferior, que julgo existir ainda no rio do papel, adiante de Queluz, na estrada que vai de Lisboa para Sintra, a qual trabalhava com uma só tina, e por pilões em razão da falta de água; por cujo motivo me não fez conta". Esta fábrica situava-se onde hoje está o edíficio desactivado da tinturaria Cambournac, visível do IC19 na curva do "papel".
Ratton iria realizar este seu projecto construindo a fábrica de papel em Tomar.Curiosamente no concelho de Sintra, em Rio de Mouro, seria instalada em 1790 uma fábrica de estamparia de chitas,sobre a qual publicamos uma artigo na revista SINTRIA I-II (1) 1982 -1983, intitulado "A Fábrica de Estamparia e Tinturaria de Rio de Mouro e o Inquérito Industrial de 1881". Este estabelecimento fabril laborou até aos anos trinta do sec. XX, o que restava do edifício foi demolido em 1982. A foto que publicamos está inserta no nosso trabalho,atrás referido, o qual tem sido utilizado por gente sem escrúpulos que não indicam a autoria quando copiam o texto para os seus "escritos". Finalmente a casa onde viveu Jacome Ratton em Lisboa é actualmente sede do Tribunal Constitucional: o Palácio Ratton.
A toponímia e a microtoponímia proporcionam informações úteis e surpreendentes relacionadas com conhecimento evolutivo das funcionalidades históricas e económicas dos sítios.
No Munícipio de Sintra com a localização indicada no mapa, encontramos uma designação que deve ser única em Portugal. A sua origem está relacionada com a construção do Palácio Real de Queluz, e consequências posteriores a este facto. Sendo uma estancia onde o Rei passava largas temporadas, era necessário a existência dum significativo número de gado cavalar quer para as funções de tiro, quer para o corpo de guarda destinado a garantir a segurança do Real Sítio de Queluz.
Para o efeito foram construídas cavalariças, no local onde hoje existe um Regimento do Exército. O efectivo das cavalariças reais de Queluz, nos séculos XVIII e XIX, era composto por centenas de animais.
O cavalo segundo, Chevalier e Gheerbrant: "não é um animal como os outros. É a montada, o veículo, a nave e por isso o seu destino é inseparável do do homem". Talvez por isso, por se considerar que o cavalo, merecia um tratamento na morte diferente dos outros animais foi decidido reservar um local apropriado para o seu enterramento.
Quem um dia destes circulando pelo IC19, entre o nó do Hospital Professor Fernando Fonseca e a curva do Palácio, aviste um cavalo alado subindo para o firmamento, não se alarme, pode ser que o último dos cavalos do cemitério, finalmente galope para as cavalariças eternas onde os corcéis se juntarão de novo aos seus cavaleiros.
Nos limites das actuais freguesias de Massamá e S. Marcos, no concelho de Sintra um pouco abaixo do que foi a "fábrica de papel", deparamos com uma ponte, bastante concorrida denominada "PONTE DOS OSSOS". É um nome "arrepiante" de trazer ao pensamento funestos presságios,e levar-nos a admitir que por aquelas bandas algo de sinistro teria acontecido.Todavia não é caso para tanto! Esta passagem está na orla da que durante a idade média foi uma importante coutada real. No outro lado da montanha de S. Marcos fica o Rio dos Veados, o que demonstra ser,antigamente, a zona povoada de caça grossa. Assim RIO DOS OSSOS e PONTE DOS OSSOS, derivam da permanência, durante séculos, nestas paragens de URSOS. O nome medievo deste animal era OSO,como ainda hoje em Castelhano.O nome da ponte resulta directamente do plural OSOS, por corruptela deu OSSOS.
Devemos concordar afinal é um nome bem divertido, se imaginarmos que por aqui devem ter deambulado os antepassados corpulentos do ZÉ COLMEIA da nosa infância.
Foi notícia o caso protagonizado por um cão, que acompanhou a sua dona até ao Centro de Saúde, aqui em Rio de Mouro - Sintra, quando a senhora se dirigia a uma consulta. Infelizmente a sua protectora não voltou, pois entretanto faleceu. Jamais franqueou a porta de saída. Desde então o animal aguarda noite e dia que a sua dona volte. Apercebendo-se do facto alguns vizinhos do bairro decidiram cuidar do cão, até uma casota já lhe foi proporcionada, o animal de vez enquanto, vai até ao sítio onde a dona residia mas volta sempre para onde a viu pela última vez, e continua a sua vigilia que enternece todos.
É uma história que demonstra que o cão é de sem dúvida o melhor amigo do homem. Eu tive um cão que morreu em Maio de 2010. Era um bom e leal companheiro, ainda não me habituei ao seu desaparecimento, confesso que de vez enquanto ainda vou até aos locais por onde o passeava na esperança do ver surgir na curva da rua, e correr para mim. Mas isto não é notícia é... saudade, e esta como escreveu a minha filha Sofia: "é a memória do coração". O meu Paco, só vai morrer, de facto quando o meu deixar de bater.
Recentemente lemos uma execelente reportagem no Jornal I, dedicada à boa mesa do nosso concelho, com incidência na Freguesia do Cacém e onde justamente se chama a atenção para o facto de embora muita gente continue a chamar "dormitórios" aos nossos bairros, também em matéria de oferta gastronómica, não estamos a dormir, é tempo dos vizinhos de Lisboa e doutros munícipios saberem onde comer barato com sabor e qualidade, designadamente: pregos e bitoques.
Seria imperdoável que como Sintrense há mais de três décadas e "utente" da "rota do prego e do bitoque" não esclarecesse, que esta especialidade tem como berço a Freguesia de Rio de Mouro, onde o restaurante "Arco Iris" fundado há cerca de cinquenta anos, assumiu desde o inicio a condição de detentor da melhor chapa e excelente matéria prima para pregos e bitoques. Por ali passaram a maioria dos que foram abrindo os seus negócios no ramo, graças ao que aprenderam naquela casa. Na nossa opinião o Arco Iris continua a presentear-nos com os melhores pregos do universo gastronómico. No entanto é justo assinalar que noutros locais este alimento de "faquires" se serve, igualmente muito bem. Sem esquecer que o pão dos pregos é fabricado na Rinchoa, em diversas padarias e pastelarias, uma das quais, ainda utiliza lenha para aquecer o forno. Tudo conjugado faz com que, Rio de Mouro deva ser considerado como Zona Demarcada do Prego e do Bitoque, única em Portugal. O Arco Iris situa-se, junto á estação ferroviária, é frequentado por muitas pessoas entre os quais o nosso ilustre conterrâneo famoso actor, grande apreciador de pregos e bitoques. O corte da carne, a chapa de aço inoxidável ampla e sempre impecavelmente limpa, o molho de cerveja, o allho esmagado, o batimento prévio da carne com martelo apropriado antes de ser grelhada, o pão aquecido barrado com manteiga para albergar a dita, tudo feito á vista do cliente, assim surge o prego. O bitoque é servido no prato, com molho de cerveja e batata frita em separado. O título tem razão de ser, e se duvidam experimentem, estas deliciosas iguarias da mesa sintrense. Bom apetite.
O terramoto de 1755, foi uma calamidade que se abateu sobre o País todo. provocando centenas de milhares de mortos e prejuízos incalculáveis. Na vlla de Sintra, o acontecimento foi descrito pelo pároco da freguesia da Vila,nos termos seguintes:
"Neste calamitoso tempo no primeiro dia do mês de Novembro de 1755 anos em que a Igreja Nossa Mâe manda celebrar a solenidade de todos os santos, visitou Deus os pecadores no rigor da sua justíssima ira; tremeu a terra pelas nove horas e três quartos do dia com tal violência que pareceu queria sacudir de si todos os mortais. Destruiram-se todos os ediícios desta antiquissima vila, e de quasi todo o Reino de Portugal. Cairam os sagrados templos, e com tão geral confusão e agonia acharam muitos miseraveis, primeiro o horror da sepultura, que o último estrago da morte. O terror a consternação e desalento deixaram de pouco melhor condição os que sobreviveram, a quem os campos serviram de asilo, e humildes choupanas de habitação, e a infinita misiricórdia de Deus de verdadeira e única consolação."
Quando passamos por um periodo de grandes dificuldades, convém recordar aqueles que com afirmações de boçal incúria, denigrem Portugual e os Portugueses, que 50 anos depois do terrível terramoto, tivemos as invasões francesas e o abandono da classe dirigente que fugiu para o Brasil. Em 1822 a independência daquela colónia. Depois a guerra civil (1828-1834), que provocou feridas que duraram anos a cicatrizar: a bancarrota no final do século XIX, a mudança de Regime em 1910, a participação a 1ª guerra mundial, a ditadura do 28 de Maio de 1926, o Estado Novo, a guerra colonial (1961 -1974). Superaramos tudo, sem ajuda de ninguém, e ainda ouvimos dizer que temos tido uma "rica vida".
É bom lembrar isto, e a memória dos nossos antepassados, porque nos mostraram que Portugal abana e cai, mas acaba sempre por se REERGUER, por maior que seja o abalo.
Os terrenos onde hoje se erguem os milhares de prédios que constituem o aglomerado urbano de Massamá, no Munícipio de Sintra, foram durante séculos solos de grande aptidão agrícola, onde se cultivavam: cereais, linho e forragens para animais, particularmente para cavalos. As propriedades eram designadas por "Terras", e de que ficou memória na toponímia, como atestam os nomes: Terra das Forcadas, Terra dos Quatro Cantos, Terra da Albardeira, Terra da Várzea, Terra do Monte Tinhoso tudo existente na area da Freguesia de Massamá.
No entanto,na zona cresciam, também muitas oliveiras, daí Casal do Olival donde se iniciou a urbanização do sítio na década de 80 do século XX. As azeitonas eram moídas no Lagar do Cacém, situado à entrada daquela localidade, onde hoje é o Viaduto do Lagar, assim "baptizado" por proposta, aprovada por unanimidade na Assembleia Municipal de Sintra, com objectivo de lembrar aquele "moínho de azeite".
Do olivedo de Massamá, resta um ZAMBUJO ou OLIVEIRA BRAVA, que continua a crescer numa esquina da rua que tem o nome do Casal. Os zambujos eram utilizados como porta enxertos das oliveiras ditas "mansas". Este arbusto apresenta um bom aspecto vegetativo, demonstrado pela foto. Se fosse possível deveria ser alindada a envolvente do zambujo e colocada uma pequena informação chamando a atenção de quem passa para este património: o derradeiro exemplar, silvestre, do casal do olival e das "terras" de MASSAMÁ.
Na freguesia de Almargem do Bispo, Concelho de Sintra, ocorrem diversos topónimos, com alguma singularidade, relacionados com a aptidão dos solos para a produção de cereais e pastagem para o gado como já referimos em anterior apontamento sobre Almargem.
O topónimo que hoje estudaremos é de um lugar, distante dois quilómetros da sede da freguesia, atravessado pela via que liga Almargem a Caneças, já no concelho de Loures, trata-se de ARUIL.
A designação desta localidade vem de ruíle, que significa ferrugem. Esta região em tempos idos foi grande produtora de cereais, os quais eram atacados por uma moléstia chamada, alforra ou ferrugem das searas, que se desenvolvia devido a causas várias, uma das quais o elevado teor de hematite no solo.
Não muito longe de Aruil estão as COVAS DE FERRO, actualmente (2011), cultiva-se nas redondezas o agrião, que por ser um vegetal rico em ferro se dá bem em terrenos,em que há esse mineral.
No Império Romano, o problema da alforra, era tão grave que existia até uma divindade, ROBIGO, que protegia as searas desta moléstia. Finalmente ARUIL, quer dizer sítio, onde as searas, cevada trigo e centeio, e os fenos para o gado, eram atacados pela ferrugem, ou alforra. A origem vem directamente do vocábulo latino rubigo, que é o mesmo que robigo, designação que se atribuía a tudo o que era "avermelhado". Em ARUIL, encontramos o local" eiras velhas", reminiscência do seu passado cerealífero.
Neste 5 de Outubro de 2011, terminam as comemorações do centenário da implantação da República Portuguesa e da promulgação da Constituição de 1911. Como é tradição, a Junta de Freguesia de Rio de Mouro, assinalou a efeméride com a colocação duma coroa de flores no "memorial" erigido em honra de Leal da Câmara, na RINCHOA.
Este gesto tem justificação, porque foi aqui que o republicano Leal da Câmara viveu os últimos 25 anos,e doou a sua casa ao municipio de Sintra. Estivemos presentes, e não deixamos de recordar o que o seu amigo Acursio Pereira escreveu:
"Esta aldeia da Rinchoa, com o seu donaire saloio e as suas graças silvestres, foi o derradeiro abrigo do sonhador. Havia, afirmo-o com segurança uma atracção para o espirito de LEAL DA CÂMARA, neste aglomerado palreiro de casario. Leal que trilhara mundos barulhentos e hipercivilizados (...) na sua primeira noite na aldeia recolhida, embiucada na treva, olhando o Céu salpicadinho de estrelas a piscarem luz, talvez tivesse perguntado, que estrela é esta, aqui,tão viva sobre o beiral do telhado?"
Estas linhas foram escritas já depois da morte de Leal da Câmara, porque se ele tivesse ocasião de responder, concerteza,teria dito:Já sei, só pode ser a REPÚBLICA.
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