Sábado, 26 de Janeiro de 2013

O MAR OUTRA VEZ? :NÃO !

O mar foi a nossa desdita, durante séculos "suas inutilidades" justificaram a "gesta imperial" para governarem a vidinha, iludindo o povo ao pretenderem fazer crer que um Pais de camponeses, era afinal  País de marinheiros. No tempo da ditadura (1926-1974) uma cançoneta muito popular, tocada na radio e cantada pelos "trovadores" itinerantes de feira em feira, proclamava na sua letra: "despedi-me das ovelhas do meu cão das casas velhas do lugar onde nasci, não me importo de ir à toa, que o meu sonho é ver Lisboa mais o mar que nunca vi".Milhões de Portugueses, estavam longe de saber o que era o mar quanto mais fazer parte dum povo de marinheiros.

A controvérsia acerca do objectivo que norteou as viagens marítimas dos Portugueses está por resolver. Atente-se na influência dos Franciscanos em Portugal e o ascendente das Rainhas Santa Isabel e D. Filipa de Lencastre sobre os respectivos maridos. A aragonesa D. Isabel por certo conhecia as ideias de Raimundo Lúlio, por isso D. Dinis trocou as florestas do Algarve Alto, pelas penedias da Beira, no tratado de Alcanizes, exemplo dum barrete bem enfiado. No entanto fez finca pé em ficar com Olivença, considerada a grande luz do ocidente "OLIVENTIA" ou olival enorme, como o azeite era então a fonte da luz deveria conservar-se a terra. Olivença foi a sede do Bispado de Ceuta, erecto antes da conquista.

Olivença e Septa (Ceuta), eram a chave que permitiria, a "um rei eleito", abrir o caminho através do Mediterrâneo, para libertar o Santo Sepulcro de Jesus. Daí a primeira "expedição ultramarina" ter sido, conquistar Ceuta por D .joão I, a insistência de D. Filipa cujo confessor era um padre Franciscano. Essa empresa resultou,mas a seguinte Tânger, bem defendida pelos seu moradores,acabou em desastre. Ficou claro que o plano para chegar a Jerusalém, utilizando o "mare nostrum" parecia impossível.

O Infante D. Henrique, lembrou-se então do caminho marítimo para alcançar a Índia, e daí pelo mar "Roxo" chegar àTerra Santa, para isso utilizou-se o ardil das especiarias para motivar o "povinho" e também a coroa, na qual D.Manuel I foi o grande beneficiado, e que se deleitava em observar do Paço de Sintra a passagem das naus da Índia pelo paralelo do Cabo da Roca, carregadas de pimenta e noz moscada. Em 1640, Ceuta quis permanecer na coroa espanhola, quando conquistaram Olivença os Espanhóis não mais abriram mão do seu dominio, porque continua acreditar-se que a posse das duas é um "dom" divino.

  A tese que o nosso futuro está no mar, volta de novo, quem sabe se não deriva esta convicção das elites dirigentes continuarem a "meter água". O provir deve ser o de finalmente, aproveitarmos o pedaço de terra que é a nossa Pátria, resgatando-o do abandono a que votaram durante séculos.

A esperança está em utilizar a água do "mar" que é o Alqueva, para desenvolver uma grande industria agro alimentar de produtos com procura no mercado global, e garantir o auto-abastecimento de Portugal. O resto são saudades do Império e da rapina que uns poucos nele fizeram,e que não aceitam que essa acção, foi a causa da decadência nacional, em vez da "gesta", deveriam ter arroteado, o solo lusitano livrando-o das giestas, e aproveitá-lo.para produzir riqueza. 

 

 

 

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Publicado por Júlio Cortez Fernandes às 15:00
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Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013

A FERVENÇA DE SINTRA

Quem se deslocar de Sintra para Montelavar ou Pêro Pinheiro, utilizando estrada nacional 9 (EN9), um pouco adiante do cruzamento de Campo Raso, no final duma longa recta encontra uma rotunda, onde sai a via para Vila Verde. Esse local chama-se Fervença.

Uns escassos metros,passando a mesma.  deparamos uma ponte sobre o curso de água que drena os pântanos que antigamente existiam na Quinta da Granja, chamada do Marquês por ter sido propriedade do 1º Marquês de Pombal, onde hoje é a Base Aérea nº1.

Este regato apesar de ter reduzido caudal no verão é perene, no inverno a corrente toma volume razoável.Deslizando sob a ponte o ribeiro precipita-se encosta abaixo na direcção da Ribeira da Cabrela, o solo do seu leito é pedregoso assim, as águas formam pequenas ondas brancas, transformam-se em cachoeira, quando o declive se acentua.

Segundo o dicionário Houaiss da língua Portuguesa, o prefixo "ferv" pode significar: borbulhar, estar agitado... Na língua galega fervença designa rápido de rio ou ribeiro. Em português, ainda de acordo com o citado dicionário, fervença quer dizer grande agitação.

Assim, consequência deste ribeiro ser de águas agitadas cuja cachoeira é testemunho, originou que ao sítio se atribuisse o nome FERVENÇA. Um topónimo singular. A "leitura" da paisagem continua uma fonte de conhecimento.

 

 

 

 

 

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Publicado por Júlio Cortez Fernandes às 15:05
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Terça-feira, 15 de Janeiro de 2013

UM SENADOR SINTRENSE

Médico e agricultor, dirigente associativo e politico o Dr.. António Brandão de Vasconcelos, nasceu na Beira Alta em 1866, falecendo tragicamente no seu palacete de Colares no dia 14 de Janeiro de 1934. Com grande prestígio local e nacional, fundador da Adega Regional, e Sindicato Agrícola colarenses, não admira que o seu funeral tenha sido acompanhado por milhares de pessoas, a pé até Colares, donde partiu um extenso cortejo automóvel em direcção ao cemitério dos prazeres em Lisboa onde está sepultado.

Brandão de Vasconcelos fez parte da Assembleia Constituinte de 1911, e posterirmente membro do Senado da República. Desiludido com o evoluir da situação política, renunciou ao mandato de Senador por carta enviada ao Presidente do mesmo, cujo teor é um testemunho notável, demonstrativo em parte, do seu carácter. Lido na sessão de 5 de Janeiro de 1916, deixamos aqui o seu conteúdo como preito a tão insigne Sintrense:

 

"Exmº Senhor Presidente do Senado. Nas mãos de V.Exª venho depor a minha renúncia a Congressista.

No início da passada sessão ordinária perante a dificuldade de conciliar os afazeres profissionais, e de lavrador em Colares, região de monocultura e que temerosa crise atravessa, com as funções legislativas, quis abandonar o Parlamento. Tendo porém surgido o conflito com o senado fiquei a acompanhar os meus colegas na reacção contra uma violência que me revoltava e que traduzia o nenhum respeito, que certos políticos tinham pela lei, pelo espírito e letra da Constituição, tentando transformar arbitrariamente e por meras conveniências partidárias o sistema bi-camaral em uni-camaral.

Agora já em um periodo execepcional de legislatura prorrogada resolvi retirar-me, lamentando a solução que teve a crise ministerial em que numa ocasião tão grave da vida portuguesa se constitue um ministério que em parte representa um desafio ao resto da nação que não comunga nas ideias Democráticas*, como se todo o País não estivesse interessado na momentosa questão da guerra europeia, como se não fosse todo ele que tem de pagar os enormes encargos que caíram e continuarão a pesar sobre as finanças portuguesas, para fazer face aos quais se vai lançar mão do agravamento da contribuição predial com a sua base iníqua de incidência cujas desigualdades a REPUBLICA TEM VINDO AGRAVAR.

Há muito que tenho a opinião de que a monarquia caíra muito pelos seus erros, mas também por falta de respeito por conveniências sociais. Infelizmente republicano antigo e como tal continuando a ser, vejo o mal não só deste ou daquele partido, deste ou daquele regime, é orgânico, é nacional.

Sem paixões partidárias, já velho para continuar na luta em vez de fazer como os meus colegas que não comparecem à sessão do Senado, resolvo retirar-me por uma vez, fazendo a toda esta câmara, a que vossa Ex.ª tão dignamente  preside e onde não sofri o minimo agravo pessoal as minhas  respeitosas saudações e despedidas

 

Saude e Fraternidade, Colares, 15 de Dezembro de 1915"

 

Quando terminou a leitura desta carta diversos senadores pretenderam intervir para manifestarem a sua opinião; o ambiente acalorou-se tendo o Presidente cortado qualquer possibilidade de intervenção, afirmando, por se tratar duma carta, o regimento não permitia discussão.

O Dr.Brandão de Vasconcelos  algumas ocasiões poderá, talvez, ter assumido posições menos correctas, no entanto, esta carta deveria servir de motivo de reflexão. Nos nossos dias os Parlamentares raramente renunciam, quando o fazem evocam motivos pessoais, e não discordância como o ilustre Senador assumiu.

 

*"democrático" foi a designação adoptada pelo PRP,Partido Republicano Português depois de 1910, face as diversas cisões verificadas no seu seio. 

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Publicado por Júlio Cortez Fernandes às 20:43
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Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2013

DOMIGOS MAXIMIANO TORRES (RIO DE MOURO 1748-TRAFARIA 1810)

Ilustre sintrense um dos mais destacados membros da Nova  Arcádia, amigo de Filinto Elísio, e de muitos outros arcades, autor de alguns dos mais belos sonetos escritos em português, é por isso grande vulto das letras pátrias.

Resolvemos partilhar com os nossos leitores, uma sua inspirada composição como lenitivo as agruras do tempo presente, e que contém matéria para meditação.

 

 

Á VIDA RÚSTICA

  

Feliz o que da corte retirado

Lá nos campos que herdou dos seus maiores

Imitando os singelos lavradores

Volve os pátrios torrões c`o liso arado

 

Não desperta jamais alvoraçado

Da rude chusma aos naúticos clamores

Nem ao tom dos horríficos tambores

Ou da estrondosa bomba ao rouco brado

 

Sem de temor pender,nem de esperança

Não vae co`a leve turba aduladora

incensar os altares da privança.

 

Humilde enfim a Providência adora

No meio da tormenta ou bonança

Esta é a vida ,oh céos,que me namora

                                                                     

Este soneto consta de "Nuno Catharino Cardoso, (1918) antologia de Sonetos Portugueses-Luso Brasileiros, Lisboa, edição do autor. 

                                                                      

 

 

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Publicado por Júlio Cortez Fernandes às 22:26
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