Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

O DR. AFONSO COSTA E O VINHO DE COLARES

Chegou ao nosso conhecimento a realização duma iniciativa, com o objectivo de dignificar e recolocar os vinhos da região de Colares, no lugar que por direito lhes compete, não só pela sua excelência mas também porque se trata dum produto, que é um ex-libris da nossa terra. Somos apreciadores do vinho Colarejo, pelo que o aumento da área das vinhas, é um facto que saudamos pois representa uma garantia de futuro para  o mesmo. Propusemos em tempo a reedição dum livro de 1938, cuja capa se reproduz, e que estava esgotado.

Tudo o que se relaciona com o vinho de Colares, nos interessa,por isso gostaríamos de partilhar um episódio que decorreu no Senado da República, sessão de 18 de Junho de 1913, do qual foram protagonistas o Sr. Dr. Brandão de Vasconcelos, sintrense ilustre, grande defensor da qualidade dos vinhos de Colares, e o então Ministro das Finanças e Presidente do Governo, Dr.Afonso Costa.

O Dr. Brandão de Vasconcelos  aproveitando a presença de Afonso Costa, chamou a atenção duma ocorrência relacionada com o vinho de Colares referindo: "o comércio e exportação dos vinhos de pasto do tipo regional de Colares, só é permitida aos produtores e comerciantes que se inscrevam em registo especial, no Mercado Central de Produtos Agrícolas. Ora em 7 de Fevereiro deu-se a circunstância dum fiscal lhe contar que estava um vinho a despacho para S.Paulo (Brasil), sem que o despachante estivesse inscrito,pelo que o vinho foi legalmente apreendido. O que aconteceu?

O dono do vinho é a antiga Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal, potentado muito grande, que alegou que o vinho tinha sido comprado  a um negociante de vinho de Colares-Viúva de João Nunes e filhos de Cintra. Ora V. Exª compreende que há sombra desta encomenda de vinho genuíno, poderão os contraventores exportar vinho de qualquer outra proveniência, desde que como aconteceu no presente caso não seja exigido que a remessa leve a marca  da casa fornecedora, única forma de tornar efectiva a  fiscalização. Chamo para este caso a atenção do Senhor Ministro das Finanças.

O Sr. Dr. Afonso Costa, respondeu "O Sr. Dr. Brandão de Vasconcelos  pode estar certo de que o que acaba de comunicar ao Senado, se for exacto, porque V.Eª se guia por informações que lhe derão, tomarei as providências necessárias para castigar quem tenha abusado."

Aproveitando o ensejo o Dr. Afonso Costa, lembrou o cariz do novo regime:" V. Exª referiu-se à Companhia Vínicola do Norte de Portugal, que antigamente era Real, eu posso informar que essa Companhia  ainda hoje se intitula Real, tendo há dias  oficiado ao meu colega do Fomento para que tomasse providências,no sentido de proibir o uso desse adjectivo. Não é somente essa Companhia que usa Real nos seus emblemas, impressos e cartas, é também a Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, que para todos os fins, menos para o público emprega a palavra Real. Num País onde não há realeza não há nada que se possa considerar Real ".

Neste episódio combinam-se a defesa do "nosso" vinho e do regime Republicano. Os que apreciamos  o vinho de Colares, louvando a intervenção do Dr. Brandão de Vasconcelos, não podemos deixar de aproveitar  a "deixa" do Dr.Afonso Costa e reafirmar que o vinho de Colares é um néctar digno tanto de republicanos como de monárquicos.

Estamos ainda muito próximos das comemorações do Centenário da República, porque não engarrafar algum genuíno vinho de Colares, assinalando a efeméride? Assim poderíamos levantar o copo à memória destes preclaros Portugueses. O vinho de Colares tem linhagem de qualidade, carácter laico no consumo, e a alma perene do povo saloio.

Para finalizar queremos fazer uma declaração de que não podemos brindar com um ramisco de boa colheita porque neste como noutros aspectos do quotidiano a "troika" e a crise que a pariu, fundiram as nossas moedas quase todas...

 

 

Publicado por Júlio Cortez Fernandes às 11:47
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