Quarta-feira, 18 de Maio de 2016

QUANDO O CABO DA ROCA, ERA - ESQUINA DE LUZ - PORTA DA BARBARIE

mulheres as joias que lhes enfeitam as orelhas e o pescoço, tornam este espectaculo verdadeiramente hediondo. Chega-se a crer que estajamos a milhares de léguas de gente civilizada. Não parece  que estejamos na Europa e no séculoXIX. Não descreio dos tribunaes deste paiz, mas não descubro meio algum pelo qual possam tornar effectiva a responsabilidade de crimes similhantes. A multidão que ataca os navios é uma multidão anonyma de centenas e milhares de pessoas. Verificar a identidade dos criminosos é impossível. Faltam as testemunhas, porque as testemunhas são também actores nestas scenas tristíssimas (...). Mandar construir um pharol em Aveiro, é o unico meio que se me figura efficaz para avisar os navegantes e os acautellar do perigo que correm, aproximando-se da costa".

na barra de Aveiro. Assim o exige a sua posição, a grande extensão da sua praia, e sobretudo as condições especiaes em que esta se encontra. De feito, a praia de Aveiro tem a extensão pouco mais ou menos de 60 milhas,e é de tal modo baixa, que as primeiras elevações apenas se apresentam a 6 ou 8 leguas de distancia.

O farol do Cabo da Roca é um dos mais antigos e importantes da costa portuguesa; no século XIX, a frente marítima de Portugal a norte daquele cabo, carecia de pontos luminosos  para orientação dos navios. O problema era de tal forma grave que o Deputado Pires de Lima, na sessão da Câmara dos Deputados de 5 de Abril de 1878, produziu uma intervenção, cujo teor reproduzimos em parte, mantendo a grafia:

"Peço licença a V.xª e à câmara, para conversar placidamente com o Sr.Ministro das Obras Públicas, alguns poucos minutos sobre a necessidade de proceder á construcção de um pharol na barra de Aveiro. Não é isto negócio de campanário, mas uma questão de humanidade. Tratando-a, não tenho por fim conquistar ou alargar sympatias políticas ou eleitoraes. O meu fim é mais levantado. Não tive ainda, nem aspiro ter, a honra de ser eleito pelo círculo de Aveiro. As portas desta casa foram-mo abertas pelo círculo da Feira, e a Feira nenhum lucro immediato ou directo terá da construcção da obra de que vou falar (...).

A nossa costa marítima, desde a foz do rio Minho até à do Guadiana, é approximadamente de 400 milhas. Ora,para que esta costa maritima seja allumiada convenientemente, precisam-se pelo menos tres pharoes de 1ªordem collocados de 100 em 1oo milhas, que é a distancia media que ha na collocação dos pharoes da Hespanha, França e Inglaterra.

Na opinião dos homens competentes, estes tres pharoes deveriam ser colocados, um no cabo de S.Vicente, outro no cabo da Roca e o terceiro no cabo Mondego mas, como cabo Mondego já tem um pharol de 2ªordem, o terceiro deve ser construído

Alem disso a atmosphera do litoral está ali muitas vezes toldada pelos vapores emanados das marinhas do sal e da imensa bacia hydraulica, que tem 45 kilometros de extensão, e que se chama ria de Aveiro. De maneira que, quando sopra o vento do lado do mar no Inverno, é facilimo aos navegantes, irem se aproximando da costa e naufragarem irremissivel e desastradamente. É raro passar um anno,sem haver na praia de Aveiro pelo menos um naufragio.

Em Lisboa não se calculam as vidas roubadas à humanidade pelos naufragios e nem ainda os horrores por que passam os pobres naufragos, que logram salvar a existência. É necessario viver na localidade e presenciar esses espectaculos vergonhosissimos para o paiz e vergonhosissimos para a civilisação, para se avaliar devidamente tão grande calamidade.

Em geral os pescadores, que são uma classe imprevidente, gastam num dia aquilo que nesse mesmo dia ganham ,sem se lembrarem nunca do dia seguinte. Vem o Inverno, o mar fechado para a pesca, e os pescadores têem de lutar com a fome e com a miseria.

Nestas circunstancias, que são as condições habituaes do seu viver, quando descobrem que algum navio se approxima da praia, e desconfiam que elle pode naufragar, bem longe de se entristecerem, alegram-se. E alegram-se, porque a sua convicção é que o navio naufragado é um presente,que a Providencia lhes envia para os indemnisar da falta de pesca,presente de que eles vão apossar-se,como se fora propriedade indisputavel e legitima, com toda a tranquillidade de espirito, sem sombra  de escrupulo nem de remorso.

Os horrores que então se praticam são verdadeiramente indescriptiveis. Como preveni-los? Como evitá-los? Como castigá-los? Eu sr.presidente, não descubro, entre aquelles que o governo tem actualmente à sua disposição, nenhum meio efficaz (...). Podia-se ainda esperar alguma cousa das autoridadesl locaes, da sua força moral e do deu prestígio. Mas, doloroso é confessa-lo, muitas vezes as autoridades locaes estão conluiadas com os assaltantes dos navios, e têem quinhão nos despojos dos naufragos.Note-se que não  acuso as auctoridades actuaes só, ou as anteriores,accuso as de todos os tempos. Sei que ha execepções, mas infelizmente raras (...). Os actos de selvageria,que se praticam por occasião dos naufragios, difficilmente se descevem. A furia com que lançam os machados ao costado do navio, a soffreguidão com que roubam tudo o que elle contém, a impudencia com que despojam os pobres naufragos das suas vestes, e a violencia com que arrancam às

Como sabemos, o farol construído, na barra de Aveiro, ainda existe, é um dos mais imponentes "faros" da nossa costa, e que contribuiu para que as situações descritas pelo ilustre deputado tenham acabado. No século XIX, em pleno período democrático da Monarquia Constitucional a norte do Cabo da Roca, uma orla marítima sem sinalização,foi um verdadeiro buraco negro, onde pereceram milhares de pessoas, não só afogadas, mas também, chacinadas por hordas de salteadores. Cada um deve tirar as suas conclusões,  não há dúvida que a distância entre a civilização e a barbárie é muito curta. Neste como noutros casos, o que está na origem de todos os males é a falta de LUZ.

A foto que deixamos do padrão do Cabo da Roca, obtida sem vivalma no local, representa na solidão do momento, uma sentida homenagem a quantos ao longo dos tempos tiveram como última e luminosa referência, no mar, o clarão, do farol mais ocidental do continente Europeu. Ontem 17 de Maio de 2016, visitei o farol do cabo  da Roca,com alunos da Universidade senior de Massamá, no ambito da disciplina da História do Património Local.Lembrei este post e considero util voltar a "editar". 

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Publicado por Júlio Cortez Fernandes às 11:29
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Terça-feira, 11 de Junho de 2013

A muito nobre e realenga Vila de Belas

A recente "degola" de Freguesias, atingiu uma das mais distintas e senhoriais das terras Portuguesas, a Vila de Belas no termo de Sintra. Estamos ligados a esta localidade não só por apreciarmos o seu valioso património natural e construído, mas também porque durante algum tempo, no período que se seguiu ao 25 de Abril de 1974, foi "assento" duma tertúlia de amigos na qual debatíamos aquilo que pensávamos ser o melhor para a Freguesia o Município de Sintra e Portugal. Bons tempos.Além disso no cemitério de Belas repousam os restos mortais do grande Português e Sintrense Leal da Câmara, cujo tumulo por vezes visitamos.

Para se aquilatar o desconhecimento da importância social e histórica de Belas, da parte de quem legislou, e acabou com sua autonomia autárquica secular, recordamos: foi sede de Concelho até 1855, no entanto durante séculos.pela amenidade do clima, ponto de passagem obrigatório da corte no caminho para Sintra, habitada por famílias nobres, serviu de pousada e estancia á mais alta nobreza do Reino. (Lavanha, 1622) relata: "Aos dezassete de Setembro (1619), foi sua Majestade e Altezas a Sintra, e de caminho el-rei passou pela fonte da agua livre, a qual se pretende meter na cidade (Lisboa), examinando-se diante de sua Majestade a quantidade de água,presente o Presidente da Câmara (de Lisboa) e outros oficiais dela. De ali foi a Belas vila de António Correa da Silva onde tem uma boa casa e jardins, nela comeu sua Majestade e Altezas, e passaram a dormir a Sintra. "Estes factos ocorreram no decurso da viagem de D. Filipe II,de Espanha, ao Reino de Portugal.

Mais tarde em 23 de Setembro de 1728, a Gazeta de Lisboa, noticiava:" A Rainha nossa senhora, foi ontem a Belas com a senhora infanta D. Francisca ver o senhor infante D. Carlos". Tratava-se da Rainha D. Maria Ana de Áustria esposa de D. João V. O infante D. Carlos,seu filho, encontrava-se doente e procurava alivio, no ambiente saudável de Belas. Faleceu em 1730, com 14 anos.O infante D.Manuel de Portugal, irmão de D. João V, nascido em 1696 viveu alguns anos em Belas onde faleceu em 1766, reinando D. José I, que o visitava com regularidade. Foi cabeça de Marquesado e Condado, adstritos aos senhores de Pombeiro e Castelo Branco D. Manuel I Duque de Beja, antes de ser rei, doou os rendimentos da igreja de Belas, as freiras do convento daquela cidade.

Artistas e autores de relevo, influentes na cultura,do nosso País,viveram ao longo do tempo na Vila. A igreja matriz,o Paço do Senhor da Serra, um dos pioneiros clubes de golf fundados em Portugal, quintas maravilhosas, uma doçaria única (fofos de Belas), são alguns dos atributos da povoação. Ironia do destino por incultura de quem pensou a "lei autárquica" reduziu esta nobre terra à condição de ostentar nome de estação ferroviária "agrupamento de freguesias Queluz-Belas". Mais prosa para quê? Doí constatar o atrevimento dos ignorantes. Belas não merecia ser tratada assim.A freguesia de Belas tem de ser reposta,por imperativo da justiça e da História.(Foto,portal manuelino da igreja matriz)

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Publicado por Júlio Cortez Fernandes às 12:21
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Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008

UM CASTANHEIRO DO TEMPO DOS DESCOBRIMENTOS PORTUGUESES

O castanheiro, é uma árvore de se conhecem em Portugal, indivíduos, com vários séculos. Originário da Ásia, os Romanos trouxeram-no para a Península Ibérica. No nosso País, até ao inicio do século XX existiam enormes Soutos ou Castanhais,  no Norte e Centro do território. Uma praga chamada "tinta" dizimou milhares de castanheiros, o abandono dos proprietários fez o resto.

Na actualidade, tem sido feito um esforço na recuperação das árvores antigas e, no plantio de novas. Em Trás-os-Montes e na Beira Interior há outra vez grandes soutos,  a produção de castanha aumentou, mas estamos longe do tempo em que se dizia "o povo come madeira e terra", porque alimentação tinha por base, castanha pilada e batata. Em Sintra sempre  abundaram, ainda hoje, subsiste uma artéria designada: Caminho dos Castanheiros nessa zona fica o vetusto exemplar motivo deste  "post".

Seguindo o Caminho dos Frades, que começa junto à Sobreira dos Fetos, já referida neste "sitio", chegamos à Quinta, em cujo muro é vísivel "O CASTANHEIRO". O tronco enorme, nodoso, retorcido, marcado com cicatrizes causadas pelo tempo e pelo homem  provoca em quem o observa sentimentos de admiração e respeito devidos as coisas venerandas. Segundo consta já existia na época das descobertas. Se assim for, tem mais de 500 anos. Com esta idade, há um outro perto da Guarda " o castanheiro de Guilhafonso".

O "Castanheiro de Sintra" é mais impressivo. Foi declarado árvore de interesse público conforme portaria publicada no Diário do Governo nº70, II série de 19/04/1945.

Como curiosidade: um dos maiores castanhais do Mundo está em Espanha, junto á fronteira com Portugal, entre Aroche e Aracena no caminho de Serpa para Sevilha, tem vários quilómetros de extensão. A partir de Novembro, merece uma visita porque, o tom da folhagem, proporciona uma visão única. Talvez por isso, no imaginário da antiga China, o castanheiro era associado ao OUTONO e ao OCIDENTE. Entre nós, como a castanha servia de alimento para o Inverno,  simbolizava cautela e PREVIDÊNCIA.

Resta acrescentar, um facto histórico, pouco conhecido: o souto, agora em Espanha, foi território Português até D.Dinis o ter trocado pelas terras de Riba Coa, conforme  Tratado de Alcanizes assinado em 1297. Á época, denominava-se  ALGARVE ALTO, aquela região. Não se ganhou muito com a troca...

Vale a pena visitar SINTRA, só para admirar este CASTANHEIRO.  Curiosamente, situa-se na Freguesia de S.Martinho, Santo protector dos vinhos e dos magustos. Quantas castanhas deste "velhinho" se consumiram para alegrar o Povo? Oxalá, o CASTANHEIRO vá resistindo. 

ABENÇOADA TERRA QUE TAL ÁRVORE CRIOU.

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Publicado por Júlio Cortez Fernandes às 22:43
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Fotografia do Cabo da Roca: Jason Weaver
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