Na calçada da Rinchoa, entre o passo certo dos que vivem e passam, e a leveza da Fonte do Rouxinol, cresce vetusta sobreira, acerca da qual já aqui escrevi. Em tempo de canícula severa, recomendando resguardo no domicilio, volto ao tema.
Não sabemos ao certo quando terá nascido ; talvez em tempo de reis exilados,muito antes da linha do comboio, chegar a Rio de Mouro. Há mais de duzentos anos que ali está, imponente firme, com tronco coberto por grossa capa de cortiça, e suportando copa tão frondosa que regala quem observa, ou descansa num dos bancos a sua sombra.
A sobreira viu construir muitas casas, abrir caminhos e ruas, e também viu quem decidiu escolher este belo lugar para base da sua vida.
Felizmente a sobreira não foi derrubada como tantas outras árvores notáveis existiram na vizinhança. Quem passa nota está ali algo que segura o presente ao chão. Árvore que é também memória. O rouxinol que deu nome a fonte e ela sombreia, quem sabe, ainda cante empoleirado num dos seus grossos ramos ?!.
A sobreira. não é só sombra, mas também herança, ser vivo vegetal, resistente e perene.
Uma dádiva de Deus onde o tempo parece ter pousado.Não é símbolo antigo de passado remoto , é raiz, aqui mesmo agora, no coração da ridente "capital" do estado livre da Rinchoa , como em tirada genial Leal da Camara apelidou.
Deixamos, não imagem da sobreira ,mas de renque de amadas árvores fixei não muito longe do sitio hoje descrevi.
Hoje, dia dedicado a relembrarmos a conservação da natureza, devendo celebrar, árvores, trilhos, e a fauna; é mister celebremos também, capacidade de transformar o que parecia perdido, em algo belo útil e vivo.
O parque urbano da Rinchoa, merece ser apontado como exemplo do que foi feito com sucesso.
Durante anos este espaço situado na freguesia de Rio de Mouro, no Município de Sintra, bem no centro da grande área metropolitana de Lisboa, seria ocupado de modo desorganizado, com hortas improvisadas, barracões inestéticos, muito entulho e detritos de toda a ordem.
Um local onde a natureza lutou sempre para não ser sufocada.Hoje estamos na presença de um recinto adornado de árvores centenárias e vegetação nativa, aberto a população , onde a natureza tornou a respirar sem peias , e onde as pessoas voltaram encontrar possibilidade de fruir o espaço natural.
Este parque urbano demonstra como é possível recuperar espaços negligenciados, indevidamente apropriados e devolve-los á comunidade, mais naturais, mais limpos,mais humanizados.
Aqui passeiam agora, pessoas,correm crianças, cruzam-se vizinhos, neste parque crescem árvores, flores silvestres, quem sabe ? também amizades...
Neste dia especial o parque urbano da Rinchoa, testemunha que conservando a natureza, proporcionamos locais onde em comunhão com o meio envolvente podemos viver melhor.
A Camara Municipal de Sintra que alocou meios para se concretizar desejo da população da freguesia de Rio de Mouro, e o executivo da Junta que soube pugnar pelo anseio dos fregueses são credores da nossa gratidão. O parque urbano foi aberto há quase uma década. A imagem que captei mostra o principio do parque, durante trabalhos de limpeza do espaço.
Leal da Câmara não desenhava por entretimento, desenhava por necessidade interior , como quem escreve para não explodir. As suas caricaturas foram espelho reflectindo acidez da política e dos costumes do primeiro quartel do século passado.
Foi um mestre da sátira faceta que soube esgrimir com elegância e mordacidade incomuns.
Chamaram-lhe fantasista, mas seria , talvez,mais apropriado apelida-lo : pensador gráfico, o seu traço denunciava o ridículo a corrupção,mas igualmente sugeria liberdade e lucidez.
A coruja que adoptou como símbolo ex-libris, não era só elemento decorativo, mas também, identidade; coruja representa sabedoria, e igualmente isolamento , introspecção.
Leal da Camara parecia compreender para ver com clareza é preciso perscrutar no escuro.
A vida pública pode ter-lhe dado em algumas ocasiões, certa notoriedade, mas interiormente, a melancolia nunca o abandonou.
Na sua casa da Rinchoa, encontrou um pouco de paz,ou pelo menos distancia do tumulto dos centros urbanos.Ali entre objectos pessoais, desenhos,e manuscritos, sentimos ainda,a presença da tal coruja vigilante.
Actualmente Leal da Camara é quase esquecido pelo grande público.A sua obra é uma lição de coragem estética e intelectual , um lembrete de que riso quando bem apontado é uma forma de aplicar justiça.
Aqui na Rinchoa, a coruja ainda espreita calada mas atenta; e este seu admirador sincero ,não perde ensejo de o recordar sempre que uma oportunidade surge tal qual agora quando passa mais um aniversário do seu falecimento , ocorrido em 1948.
No coração de Rio de Mouro,dito antigo, ou talvez inapropriado Velho, ergue-se um templo que funde fé comunidade, e identidade, a Igreja Matriz de Nossa Senhora de Belém.
Foi o cardeal D. Henrique, tio avô do infeliz rei D.Sebastião, quem encomendou esta construção que a partir de 1563, acolheu os frades da ordem de S.Jerónimo, vindos do Mosteiro da Penha Longa, onde a devoção á Virgem de Belém. era viva, afastando qualquer confusão com os Jerónimos de Lisboa, e reforçando uma ligação espiritual unido a Serra de Sintra ao Tejo.
A igreja formada por nave única de arquitectura maneirista, escorreita, resistiu ao terramoto de 1755, e as inclemências do tempo.
No seu interior destacam-se a pia de água benta, ao estilo manuelino, o que segundo alguns historiadores, parece demonstrar igreja mais antiga do que a data 1563, gravada na pedra sobre a porta principal.
Além desta pia destacam-se, imagem gótica de São Brás, um baixo relevo da Anunciação, e altar mor em talha dourada , singulares testemunhos do cruzamento épocas e estilos.
Todavia. o que torna este templo especial é a ligação profunda entre a pedra e a gente que o frequenta.Todos meses de Julho, a comunidade de Rio de Mouro antigo,reúne-se no adro para celebrar a sua padroeira com procissão música gastronomia e encontros inter geracionais, rituais que fazem ecoar pelo vale onde corre o rio do topónimo, a devoção começada há quase 500 anos.
A inauguração do novo hospital de Sintra, marca inicio de uma nova etapa para o concelho - uma etapa em que os cuidados de saúde passam a estar mais próximos , mais acessíveis e humanos.Esta obra representa mudança profunda não só no sistema de saúde publico local,mas também na qualidade de vida de quem vive trabalha e sente orgulho na condição de ser sintrense.
Durante anos população enfrentou exasperantes tempos de espera para atendimento, cansativas deslocações e serviços sobrecarregados pela afluência de utentes.Estas situações agravavam o sofrimento de quem precisava ajuda rápida.
Com este novo hospital, Sintra, deixa para trás essa realidade e abraça o presente onde o cuidado com as pessoas está verdadeiramente no centro da acção política.
A qualidade de vida não se mede apenas pelo que possuímos, mas pelo modo com vivemos.Viver num concelho onde a saúde é tratada como prioridade é viver com mais dignidade tranquilidade e esperança, a população saí da situação de desespero, isto é de espera sem perspectiva.
Sintra está a transformar-se num território onde cada vez mais vale a pena viver, um concelho onde o Município aposta na saúde no bem estar, proporcionando quotidiano mais tranquilo e digno aos habitantes do concelho.
Este hospital não é apenas um edifício é um factor de mudança a qual começa agora nas pequenas e grandes histórias que aqui vão acontecer.