Na tranquila paisagem de Rio de Mouro, a quinta das Serradas, foi durante largas temporadas refúgio escolhido por Gago Coutinho. Aqui afastado da agitação do grande centro urbano, o notável marinheiro e aviador encontrava espaço para recolhimento e contemplação ; um lugar onde a mente se podia elevar tal como o voo que viria a marcar a História de Portugal.
Foi neste recanto sereno, que Gago Coutinho, talvez tenha amadurecido ideias ,desenhado rotas e consolidado conhecimentos científicos que o levariam em 1922, a protagonizar, com Sacadura Cabral, a primeira travessia aérea do Atlântico austral, ligando a sua Lisboa natal ao Rio de Janeiro. Facto arrojado que uniu dois mundos e demonstrou a perícia náutica e técnica resultado da vocação do povo português para desvendar oceanos, e depois também os céus.
Mais do que um lugar de estadia, a Quinta das Serradas; quem sabe ? foi cantinho discreto da preparação e concretização de um sonho, aqui também se caldeou a coragem para enfrentar o desconhecido e vencer o Atlântico.
O exito da viagem histórica deveu-se não só a determinação e ao génio dos protagonistas, mas também ao apoio popular e firmeza do Governo da República, que via na missão oportunidade de afirmar o prestigio do novo regime, estreitando ao mesmo tempo, laços de amizade com o Brasil no centenário da independência daquela grande Nação.
Para Gago Coutinho, fervoroso republicano, o sucesso da travessia representou mais do que uma vitória pessoal, ou técnica, provou que a República Portuguesa, tinha rumo, visão e alma, contribuindo para a consolidar no povo nova esperança num Portugal moderno , livre e audaz.
Quem passar hoje junto aos muros da quinta observando estado decrepito do casarão nem sonha a importância que o sitio tem na História recente da nossa Pátria.
Naquela época, Alto do Forte , também conhecido por Casal da Serra das Minas, era sitio da freguesia de Rio de Mouro, apresentando uma realidade económica, marcada por práticas tradicionais de transporte e comércio, a partir do qual operavam meia dúzia de veículos de duas rodas com tracção cavalar, serviam para transportar mercadorias, conduzidos por cocheiros profissionais , todos naturais de Lisboa, oficialmente habilitados para exercício da profissão.
Desempenhavam papel crucial no domínio económico da região, assegurando ligação entre as estações ferroviárias do Cacém, Rio de Mouro,Mercês, e os centros de consumo locais.As mercadorias essenciais ao quotidiano da população, circulavam graças actividade destes homens e seus veículos, adaptados as características do território.
Socialmente os cocheiros eram figuras respeitadas pela sua utilidade; detinham conhecimento profundo do terreno, horários e roteiros,o que conferia estatuto de confiança no seio da comunidade.
Este sitio desempenhou.papel relevante,como nó viário estratégico, onde confluiam diversas vias rurais, garantido ligação entre varias localidades, como Covas, Serradas, Albarraque , Abrunheira e Casais de Mem - Martins.
Para além da função logística, no local existiu famoso retiro ou tasca de comes e bebes,funcionando como ponto de convívio e paragem social.
Alto do Forte, Casal da Serra das Minas,não era apenas cruzamento de caminhos, aliás como todos entroncamentos de nomeada , também aqui há um cruzeiro, lembrando fatídica ocorrência.
O Alto do Forte, desempenhou papel reflectindo a importância dos pequenos núcleos periféricos na organização do território de Sintra nas primeiras décadas do século XX. Imagem do cuzeiro do Alto do Forte, na epoca referida .
Foi por esta altura no já distante 1979, que apresentei uma proposta para colocação da placa recordatória , no padrão do Cabo da Roca, com a genial frase de Luís de Camões " Aqui ... onde a terra acaba e o mar começa". Contendo além disso, indicação da latitude e longitude do lugar, atestando inequivocamente, ali está o extremo Oeste do continente europeu.
Formulei aquela, durante o mandato como vereador da Camara Municipal de Sintra, entre 1978 e 1982, com objectivo de valorizar, simbolicamente, o ponto mais ocidental da Europa continental, associando-o a herança literária e cultural portuguesa.
Mais tarde o senhor Vereador brigadeiro Machado de Souza,confirmando que a ideia partira do vereador Cortez Fernandes, concretizou deliberação camarária, consultando o Instituto Hidrográfico, para validar as coordenadas geográficas de latitude e longitude e também altitude acima do nível médio das aguas do Oceano Atlântico.
Resultou desta minha ideia criação de marco icónico, no Cabo da Roca, unindo geografia, história e identidade nacionais.E também um contributo para a valorização cultural do concelho de Sintra.
A preocupação do sr. vereador Machado de Souza, com a exactidão das coordenadas, teve todo cabimento; muita gente e até autoridades oficiais afirmavam seria o Cabo Finisterra na Galiza o local mais a ocidente do território europeu, não insular.
Estavam errados fizeram rigorosas medições, hoje quem for a "Fisterra", pode verificar na placa informativa ali colocada a longitude do nosso cabo está um pouco mais a Oeste, como sempre sustentámos.
Já agora proponho, mandem executar cópia da placa existente colocando-a na face oposta do padrão no Cabo da Roca; sendo aquela memória dos objectos mais fotografados do Mundo, seria ainda mais impressivo as fotos passem mostrar o Oceano , coisa que agora não sucede; quem faz o "boneco" está de costas para o Atlântico.
Oxalá tenha cabimento este alvitre, porque como diriam amigos muito queridos " faz todo sentido ".
Durante gerações o antigo caminho da missa, guiou os fiéis das aldeias de Albarraque, Serradas e Covas até a igreja matriz de Nossa Senhora de Belém, em Rio de Mouro, Sintra.
Esquecido pelo tempo e coberto de mato e silvados, chegou a tornar-se intransitável. Todavia a memória de um povo não se apaga. Assim sucedeu também neste caso.
Pela iniciativa e persistencia do então presidente da Junta de Freguesia, Alexandre Bruno Parreira, o caminho seria limpo,e devolvido em condições á comunidade.
Um gesto simples. carregado de profundo significado. Quem cuida da história, honra as suas raízes, dá sentido ao futuro,e merece a nossa gratidão.Neste caso a minha será eterna.
Aspecto do caminho da missa como o fixei há alguns anos ; parece foi ontem.