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Tudo de novo a Ocidente

A PROPÓSITO DA POSSE DO GOVERNO SEM MINISTRO DA CULTURA

Dia 21 de Junho foi o solstício do Verão, gostaria de partilhar com quem lê os meus despretensiosos apontamentos e a propósito do enunciado no título, excerto duma carta de Manuel Laranjeira, escritor e médico que nasceu em 1877 na Vila da Feira, e se suicidou em 1912 em Espinho, remetida a Miguel de Unamuno, filósofo e professor catedrático da Universidade de Salamanca, grande conhecedor e amigo de Portugal, anti -franquista que nasceu em 1864 na cidade de Bilbau e faleceu em 1936 na "Salamanca (que) apascenta as raízes da minha alma". O texto epistolar é o seguinte :

 

..."O mal da minha terra,amigo, não é a demagogia: é a inépcia. Em Portugal não há demagogia: falta-nos fanatismo cívico para isso. Em Portugal o que há é uma inverosímil colecção de idiotas. A demagogia é um mal, como tudo o que é sectarismo; mas é um mal que pode ser combatido e destruído. A imbecilidade, essa é que é um inimigo invencível. Fez-se a revolução. Foi uma verdadeira revolução? Não, foi apenas um povo que mudou de traje. Por dentro estamos na mesma. O nosso grande mal é pensar como aqueles indivíduos que se  julgam hipercivilisados, só porque andam vestidos pela última moda de Paris.

A revolução política para ser fecunda tinha de ser acompanhada dum revolução intelectual que não se fez, nem há indícios de fazer-se. O povo português apresenta-se ao mundo civilisado por fora, e o que é preciso fazer, o que é urgente fazer, é civilizá-lo por dentro. Mas nisso ninguém pensa, tão convictos estão todos de que para civilizar um povo basta fazer-lhe mudar de gravata.

Eis precisamente o nosso mal: é ninguém sentir necessidade de fazer CULTURA, é ninguém compreender que a inteligência é o grande capital dos povos

modernos e a CULTURA a mais fecunda das revoluções. Somos incultos, mas esse não é o mal irremediável: o mal irremediável é a inépcia, é ninguém ter a compreensão (ou o pressentimento sequer) do que seja-a CULTURA. O terrível é não sentirmos o desejo de ser civilizados e contentarmo-nos só em parecê-lo.

E senão veja o governo da República acaba por exemplo de decretar a fundação de mais duas Universidades, uma em Lisboa, outra no Porto, quando o que havia a fazer, antes de tudo, era demolir aquela que existe. Três Universidades numa terra onde mal se podem arranjar professores para uma só!

Um dos flagelos de Portugal era o analfabetismo do povo: agora chove-nos mais esta praga - o analfabetismo dos doutores. E é assim que a inépcia desta gente confunde CULTURA com diploma e julga  que para civilisar o povo basta infectar o país de diplomados. Quanto á inteligência, essa em Portugal continua a valer o mesmo - nada"

Esta carta é datada de 1911, decorridos 100 anos parece que pouco mudou. Sem comentários cada um fará o seu juízo. Quando me ocorreu escrever este "post" à sombra dum florido castanheiro da quinta grande de Meleças, pensei terminá-lo com uma citação de Unamuno:

"Cristo nosso, Cristo nosso! Porque nos abandonastes."

 

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