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Tudo de novo a Ocidente

As Nove Árvores da Memória

Uma das facetas da personalidade de Leal da Câmara, manifestava-se pela sua persistente preocupação em congregar vontades cultivar o convívio entre pessoas e entidades, interessadas no progresso da Rinchoa sítio escolhido para viver o tempo final da vida. Na localidade deixou obra cada vez mais valorizada e compreendida, tarefa difícil. O rumo traçado na concretização dos seus objectivos, passou por aglutinar em torno da "ideia" um conjunto de indivíduos com interesses ligados a Rinchoa, organizados numa estrutura denominada Comissão de Iniciativas e de Melhoramentos da Rinchoa-Mercês. A Comissão "Composta sempre dos mesmos, um verdadeiro bloco cimentado, por já velha e mútua amizade e até grande familiaridade, á qual se vêm juntar novos prosélitos... que substituirão o pequeno número de fundadores, verdadeiro senado desta instituição a que estas duas povoações devem o seu desenvolvimento e propaganda "Era a opinião do mestre sobre a comissão à qual presidiu até ao falecimento.

O trabalho da Comissão, frutificou a urbanização da Quinta Grande entre a Rinchoa e Meleças, é actualmente um exemplo de urbanismo de qualidade no concelho de Sintra. A "fantasia" do mestre concretizou-se, as marcas do seu pensamento e acção ficaram "impressas" na paisagem, o simbolismo das artérias da urbe, a rotunda octogonal que assinala o centro da urbanização, "grito de Alma" de Leal Da Câmara só foi possível com a "cumplicidade dos seus "irmãos" da Comissão.

Os membros da da Comissão eram nove, elegeram sempre Leal da Câmara para presidente;por isso considerava-se: "Mestre Eleito dos Nove". O que remete para o nono grau do rito escocês da maçonaria a que Leal pertenceu, naquele grau é feita a apologia da democracia e direito dos povos escolherem os seus governantes.

Para perpetuar a amizade dos nove com o seu eleito, plantaram nove árvores no pátio da antiga escola primária, edifício construído graças ao empenho da comissão. As árvores são "memória" lembrando a fraternidade, igualmente sinal inequívoco do amor pela liberdade e democracia num tempo de opressão autoritária, característica do Portugal salazarista. Local emblemático e simbólico do "estado livre da Rinchoa" como apelidou o "mestre eleito" Leal da Câmara.

 

LEAL DA CÂMARA UM FANTASISTA REALIZADOR DE SONHOS:A ESCOLA DA RINCHOA

Leal da Câmara foi um Português de invulgar talento, faceta que tem sido realçada por diversos  que o têm estudado. No entanto,à medida que vamos conhecendo o "sonho" que idealizou para materializar na Urbanização da Rinchoa, não temos dúvidas, Leal era um homem que possuía o dom da genialidade.

Acúrsio Pereira escreveu, em sua memória um belissimo trecho onde desvenda um pouco do mistério da personalidade de Leal da Câmara, nos termos seguintes:

"Feliz este Mundo! Os cavaleiros do Graal de alma angélica e corpo virgem continurão a passar serenos e bravos alegremente sofredores desinteressados e justos, embora deixem avermelhado com o próprio sangue as rosas brancas dos atalhos campestres".

O seu amigo sabia porque escreveu, tendo convivido com Leal durante muitos anos assistiu à concretização de uma das suas obras símbolo do ideal que sempre norteou o seu modo de viver. A escola primária que projectou para a Rinchoa, para além da sua função de difundir a instrução foi imaginada como um templo erigido à Glória de Deus e ao amor pela humanidade, este de acordo com o seu ideal republicano: "era o único digno da condição humana", como postulara Sampaio Bruno.

Na escola da Rinchoa, a entrada principal é franqueada transpondo duas colunas, e como é possível aceder ao interior por três lados da porta as colunas totalizam quatro: número das letras do nome de DEUS. Na frontaria foram rasgadas quatro janelas.

Num lado da porta principal num esboço em gesso dentro dum circulo, está a face de Feliciano de Castilho, o pedagogo cego e autor do belissimo poema a ROSA. No outro lado, com o mesmo pormenor construtivo está João de Deus,  autor da Cartilha Maternal. Encimando o conjunto a imagem de Nossa Senhora das Mercês.

Estamos perante uma possível alusão ao grau 18º do Rito Escocês Antigo e Aceito da maçonaria universal denominado: Soberano Príncipe Rosa-Cruz. Neste grau segundo os rituais conhecidos as colunas designam-se: FÉ, ESPERANÇA e CARIDADE.

Castilho por ser cego representa a FÉ, para acreditar tendo fé não é preciso ver, João de Deus e a sua cartilha dedicada as crianças simboliza a ESPERANÇA num provir melhor. Nossa Senhora das Mercês porque mercê é dádiva representa a CARIDADE.

Esta obra de Leal, prova o seu deísmo e a crença no carácter divino do ideário da verdadeira República onde a ética e a liberdade conduziriam o Povo à plenitude da democracia.

Leal da Câmara acreditou sempre que a Pátria é uma comunidade de sonhos, aproveitemos o seu exemplo e não deixemos que nos retirem esta convicção. Para além de todos os golpes dos mais ousados e sem escrúpulos: "os desinteressados e os justos" irão alcançar a República sonhada desde os tempos de PLATÃO!? Quem sabe?"as lições do passado são os ensinamentos do presente. No entanto não esqueçamos a imagem de Manuel Bernardes: "é quimérico pretender endireitar a sombra da vara torta".

 

O CRUZEIRO DE RIO DE MOURO, JUNTO A ANTIGA ESTRADA PARA SINTRA

 

No sítio do Alto do Forte, num do lados da rotunda  existe um Cruzeiro que passa despercebido aos apressados condutores que ali  circulam. Segundo o Dicionário Houassis da Língua Portuguesa: "Cruzeiro é um substantivo masculino que designa uma grande cruz erguida  em certos adros de igrejas, estradas, praças (...)."

Estamos perante um exemplar, cuja colocação neste local teve como causa um episódio curioso. Esteves Pereira (1913) relata-o desta forma: "Á beira da estrada antiga de Lisboa a Cintra e ao lado dela vê-se o cruzeiro de Rio de Moiro (sic). Composto de base rectangular de 1m de altura, 2 degraus de uns 15 cm e uma cruz de 2m de alto de haste e braços cilíndricos com uma espécie de grinalda, colocada diagonalmente no ponto do cruzamento dos braços. É de pedra lioz lavrada sarabulhenta tendo apenas a frente da base lisa e na qual se lê em letra variada:

 

Aqui Chamou Deus D esta Vida Huma Boa

Mãe! Orae Pela Sua Alma. Em Saudosa

Memória Erigiram Seus Filhos Esta Cruz.

 

O mesmo autor refere que, a senhora  ia de Lisboa para Sintra de sege e morreu de repente deixando os filhos em grande consternação, por ser então aquele sítio um perfeito ermo. O cruzeiro deve ter sido colocado em meados do século XIX.

No ano de 1977, durante trabalhos realizados no local uma máquina escavadora com o braço, partiu um dos lados da Cruz  que por algum tempo ficou amputada. O presidente da Junta de Freguesia ao tempo, o Sr. Clemente Freire, mandou reparar o cruzeiro dando satisfação um pedido que então fizemos.

A antiga estrada de Lisboa a Sintra foi atribuído o nome de Rua Elias Garcia, em homenagem a José Elias Garcia, que faleceu em 1891 deputado Republicano durante a monarquia, vereador da Câmara de Lisboa e Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano da Maçonaria Portuguesa. A rua Elias Garcia é mais extensa de Portugal, pois vai das Portas de Benfica em Lisboa até Sintra.

O cruzeiro de Rio de Mouro devia ter uma envolvente mais de acordo com a sua  singularidade. As árvores que o adornam: Palmeiras, não seriam as mais apropriadas. Como os últimos temporais derrubaram um arbusto ornamental que estava perto do monumento, porque não substituí-lo por um cipreste com algum porte? O cipreste simbolizava a imortalidade, como está sempre verde oferece um aspecto idêntico em qualquer estação do ano. Para que o Cruzeiro não passe despercebido de noite deveria ter iluminação adequada.

Oxalá estas sugestões tenham eco...  

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