LEAL DA CAMARA UM SÁTIRO MELANCÓLICO
Leal da Câmara não desenhava por entretimento, desenhava por necessidade interior , como quem escreve para não explodir. As suas caricaturas foram espelho reflectindo acidez da política e dos costumes do primeiro quartel do século passado.
Foi um mestre da sátira faceta que soube esgrimir com elegância e mordacidade incomuns.
Chamaram-lhe fantasista, mas seria , talvez,mais apropriado apelida-lo : pensador gráfico, o seu traço denunciava o ridículo a corrupção,mas igualmente sugeria liberdade e lucidez.
A coruja que adoptou como símbolo ex-libris, não era só elemento decorativo, mas também, identidade; coruja representa sabedoria, e igualmente isolamento , introspecção.
Leal da Camara parecia compreender para ver com clareza é preciso perscrutar no escuro.
A vida pública pode ter-lhe dado em algumas ocasiões, certa notoriedade, mas interiormente, a melancolia nunca o abandonou.
Na sua casa da Rinchoa, encontrou um pouco de paz,ou pelo menos distancia do tumulto dos centros urbanos.Ali entre objectos pessoais, desenhos,e manuscritos, sentimos ainda,a presença da tal coruja vigilante.
Actualmente Leal da Camara é quase esquecido pelo grande público.A sua obra é uma lição de coragem estética e intelectual , um lembrete de que riso quando bem apontado é uma forma de aplicar justiça.
Aqui na Rinchoa, a coruja ainda espreita calada mas atenta; e este seu admirador sincero ,não perde ensejo de o recordar sempre que uma oportunidade surge tal qual agora quando passa mais um aniversário do seu falecimento , ocorrido em 1948.
