O RIBEIRO MOVENDO A SAUDADE
O arcade Alfeno Cynthio, pseudónimo que o Sintrense de Rio de Mouro, Domingos Maximiano Torres escolheu para si, demonstra o seu grande afecto pelo local onde nasceu. Além disso deixou-nos outras manifestações de quanto o inspiravam os sítios onde gostava de permanecer e nos quais hoje moramos. Para ilustrar esta afirmação, aqui fica um soneto de Alfeno, escrito em 1791.
Que triste horror,que muda soledade
Me abafa em torno nesta selva escura
onde a espaços vislumbra na espessura
Da lua incerta,e frouxa claridade
Ouço Melampo*uivar na minha herdade
A rouca rã em seu grasnar atura;
Ruge a aura surda, o lobrego murmura
o ribeiro movendo a saudade
Eis sinto a voz dos mochos agoireira
dobrar os guinchos na ouca penedia
Anunciam meu fim? O céu o queira
Que mortal mais feliz do que eu seria
Se meus anos a infeliz carreira
Aqui findasse sem mais ver o dia ?
Analizando o texto do poema,ficamos a saber que a inspiração surgiu na quinta do autor, em Rio de Mouro, que ele designou por "minha herdade". O ribeiro que movia a saudade é o curso de água que todos conhecemos "o mouro". É um belo e melancólico poema onde está patente a grande sensibilidade lírica de Domingos Torres, sem dúvida um dos grandes cultores deste género poético, da Lingua Portuguesa.
*Designação poética de um cão de guarda.

